terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Passarinho

Quantos poetas
já te cantaram,
passarinho?
Destes cantos
quais superam
os teus?

Já não cantam mais,
passarinho,
pois cessaste
teus cantos
nesta terra do Brasil.

Escrito em 2013. Nicolas Peixoto

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Well

Well

Well, well
Do you remember Jake?
He was a moron
He used to read a book at the park
Listening to his favorite songs
He has loved some girls
But he couldn’t tell his feelings
He was a moron, indeed

Escrito em 16/06/2014. Nicolas Peixoto

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A mudança

A mudança

I
Sonhei que mudava o mundo
mudava o mundo,
mas era uma mudança tímida
mudança vencida.
Como que através da percepção
de que a fome, a guerra e a miséria
são componentes essenciais (e, por que não, necessários)
à vida dos homens,
compreendi a mudança a ser feita.
A mudança mudaria a vida de todos:
a fome ainda seria fome
os barracos, ainda barracos
o olhar segregador
manter-se-ia intacto.
Porém, o que importaria
seria a mudança possível (desejada):
libertar-se-iam as palavras,
e, com elas, preconceitos
e, com eles, modos de vida
até que tudo se ajustasse
sozinho, como que por mágica.

II
Acima de tudo, tal mudança
servia para o eu – sentia-me
tão revolucionário, tão agente no mundo
mas, à noite, sabia que não agia
sabia que nada mudava além da moda.
A mudança não mudava
o jogo de interesses, mas
mudava o “o” e o “a”
(e isso sim era importante, veja)
“a” e “o” fundiam-se num “x”
um x que pouco diz,
mas fazia meu ego feliz.
E, para as injustiças sociais,
as palavras eram ferramentas de afirmação
mas nada além disso.
Eu, fingindo amar as palavras
mudava o mundo através delas,
e todxs eram livres.

III
Até que, enfim, acordei
olhei para minha rua
(rua feia, suja, de lugar humilde)
e me deparei com as condições que
preferi negar:
a vida prática em ação.
E foi sob aquele sol,
com vista privilegiada
para o valão
que percebi que minha mudança 
nada mudava.


Escrito em 23/09/2015. Nicolas Peixoto

domingo, 13 de setembro de 2015

Teu quereres

Teu quereres
(À Sulamita Siliprandy)

Se te aperto como quero
tu me largas
Se te largo como queres
tu me abraças
Se desenho tua imagem
tu a embaças
E se ouso te esquecer
tu te apresentas
em meus sonhos mais íntimos...
Que queres de mim?

(escrito em 21/09/2014). Nicolas Peixoto

quinta-feira, 12 de março de 2015


UM AUTOR

            Eu nunca quis ser o dono do mundo. Não, minha meta de vida era viver com a notoriedade de uma formiguinha. Não quis nunca ser o melhor em nada. Não era o melhor aluno, não era o mais veloz, ou mesmo o mais querido. Gostava de notar que minhas saídas nunca eram notadas. Aliás, sou o irmão do meio: aquele que perde a coroa e vira um número. Mas isso não me aborrecia; eu tinha um prazer secreto em me sentir apagado, misturado, contingente.
            Meus amigos, eu não os tive: esforcei-me bastante para não ser digno da amizade de ninguém. Fugi de maneira exemplar dos poucos ousados que tentaram penetrar minha realidade. Certa vez, um colega de escola foi até a minha casa, chamou-me ao portão. Permaneci deitado em minha cama, cuidando para que mesmo minha respiração não fizesse o menor barulho e me denunciasse. Ele até que insistiu bastante, mas o meu muro (impecavelmente construído com o labor dos anos, devo dizer) rompeu seu punho, cansou sua voz: vencido, deu meia-volta e desceu a rua. Observei-o pela minha janela, triunfante.
            A minha vida amorosa é a história da não-vida amorosa: ela nunca morreu, pois nunca dei vida a ela. Clara: essa menina me deu trabalho. Quase me desviou de meu caminho. Ela tinha todas aquelas qualidades que o ser humano, não se sabe quando, elegeu como exemplares. Clara conseguiu perseguir-me por um ano, feito único e louvável. Clara obrigou-me a exprimir palavras, pois o meu silêncio já perdia força. Uma carta! A primeira e única carta que já remeti a alguém. Nunca recebi uma resposta, talvez seu silêncio já a seja.
            Não é que eu seja apático, que eu não sinta o amor (mas que palavra imprecisa!), eu só quero cumprir com o meu objetivo. Eu preciso. Os amigos que nunca tive têm amigos, as mulheres cujo amor neguei já estão comprometidas, creio. Minha família me compreendeu bem: nunca um telefonema. Talvez a maior mostra de amor que já recebi.
            Ao longo dos anos, fui nutrido por livros: não me cobram nada, não me buscam, não preciso amá-los. E, ainda, proporcionam a melhor conversa que podemos obter. Obter. Porque essa conversa não é líquida, ela é palpável. Eu TENHO Borges. Eu TENHO Göethe. Sem pedir, sem dar, sem me explicar. Abro o livro e pronto. Sou dono daquilo tudo – um dono silencioso e anônimo.
            Não passo meu conhecimento para ninguém e nem quero fazê-lo. Não sou professor, nem mestre, nem profeta. Sou apenas uma formiguinha. Uma formiga que sabe que sabe, mas que não ousa mostrar sabê-lo. Concorde comigo, é uma posição deveras confortável: ninguém inveja a folhinha que carrego, pois não sabem o que ela esconde. Assim, sou um ser que sempre tentou bastar a si: um ser-de-si e ser-para-si. Foi assim que segui vivendo num buraco afastado, encontrando pessoas apenas para práticas mercantis e trocas de serviços. Não nego que a troca entre seres humanos seja necessária, o que não admito é o seu excesso.
            Caminhei como uma sombra sem referente por longos anos, e isso me alegrava. A cada dia solitário, a cada dificuldade que superava sozinho, sentia-me mais forte. Fui cumprindo meu objetivo de coadjuvante até que o destino me amaldiçoasse. Isso se algo grandioso como destino existir (a ideia é assombrosa, não consigo concebê-la). Até que o acaso me batesse na face, melhor dizendo.
            Encontrei em um sebo um velho livro, de capa dura marrom, mas em lugar algum havia o nome de seu autor. Suas páginas carregavam palavras fortes – não me atrevo a lê-las novamente para dizer a você. Tive a infelicidade de comprá-lo e, ao chegar a casa, larguei tudo para poder lê-lo.
            A leitura estendeu-se por uma semana, com intervalos apenas para comer e ir ao banheiro. Na profundidade daquelas palavras, o maldito autor se escondia. Anônimo. Ousadia maior, muito maior que a minha: publicar tal livro e ocultar seu nome. Aquilo me causou um mal terrível, senti-me ultrapassado, uma criança que pensa já ser crescida.
            Comecei a imaginar possíveis nomes para o nosso autor. Com aquelas palavras, tão substanciais, só poderia ser filósofo. E que nome teria um filósofo? Seria ele alemão (boa parte de minhas leituras é feita nesse idioma)? Não, não era filósofo, ele não cometeria esse erro. Usava palavras com tamanha sagacidade que só poderia ser poeta, então. Ou, talvez, um romancista que se aventurava num ensaio, ocultando até mesmo sua técnica!
Não consegui penetrar tais palavras a ponto de alcançar seu criador, não consegui traçar um caminho para encontrá-lo. Nem mesmo uma sigla, nada. Não havia referências quanto à publicação, ano, língua, tradução... Fui abatido, terrivelmente derrotado por alguém maior que eu, alguém que fala (e que fala!) e nem ao menos existe!
Esse fato em si já foi o suficiente para me fazer pensar em toda a minha existência, meus planos, objetivos, tentativas de não existir. A única coisa a que me dediquei arduamente durante todos esses anos, destruída por um às do anonimato, mestre das palavras. Porém, sua cartada maior veio ao fim do livro: o último parágrafo...................................................................................................
Impossível reproduzi-lo!
            Ao terminar o livro, um arrependimento mortal invadiu meu ser. Nosso autor (não contente em ter arruinado meu propósito – e nada sou além de meu propósito) não é nada, nem ninguém. Ele não escreveu o livro: passou para mim tal missão. O livro é de minha autoria. Sou EU o autor!
            Fiquei tão atordoado com essa revelação, esse golpe baixo. Além de desbancar minha sombra, o não-sujeito ainda me tornou autor do livro. Não conseguia mais ler/escrever aquelas palavras (mas o fazia, mesmo com desprezo), palavras de outrem, minhas próprias palavras. Deu-me tudo o que exemplarmente recusei, jogou-me aos holofotes, nu.
            Permaneci sujo, cansado, encarando aquele livro, MEU livro. E também minha desgraça. E foi assim que me tornei o dono do mundo.

* * *

Editado em 09/03/2015.

Nicolas Peixoto

sábado, 10 de maio de 2014

Uns versos

Dualidade cartesiana

A história me entrega
o que meu olhar me nega.
Meus sentidos não
são confiáveis: 1637.
Confundi mel com fel,
amor com espinho.
Como pode ainda
haver tanta dúvida, meu Deus?
Sou dois, e um vale por meio
um eu que é sub-eu
que não pensa
que só ouve, cheira, sente gosto, vê, toca
que é guiado pelo supra-senso razão
e é assim que deve ser...
Mas e a história?
Não me contradiz?
Hoje eu a reescreverei.



Arquivo morto

Há dias me vejo sem nenhuma mobilidade
encostado na parede
Se me movo é porque alguém me empurra
sou movido por vontades alheias
nem sempre me satisfaço com meu lar atual
Há muito espaço em mim
sou preenchido diariamente com lembranças,
documentos oficiais, memorandos
folhas em branco aguardando tinta.
Sou testemunha de olhares
crimes amores.
Tornei-me um arquivo:
mudo, frio, de ferro.



A santa sonsa

Às sete da noite, alvinha:
- Paz do Senhor, mocinha!
Senta-se no banco frontal
(Agrada-lhe não apenas o frontal, dizem)
É aleluia!
Canta, chora, reza
reza muito, ajoelhada
gosta de ficar ajoelhada
(é assim que alcança o gozo-místico?)
Fica muito emocionada, essa irmã
Mas que santidade!
Se casará virgem! (há erro em
[algum lugar desse verso...


Pântano da Dutra

Durante três anos da minha vida
passei diariamente por um pequeno pântano
na rodovia Presidente Dutra.
Era sujo, mas abrigava alguns animais
ficava bonito ao fim da tarde.
Era meu pântano, minha água turva
e semana passada não pude vê-lo
paredes de ferro onde se lia
"em breve: Shopping Dutra" impedem-lhe a visão.


Interlúdio

É costume meu dizer
que não gosto de surpresas.
Eis que, ao espelho, vejo que isso é mentira.
Finjo, tento esconder-me do eventual,
do golpe-oculto;
vontade de ser Deus.

Orgulhoso, gostas das surpresas da vida:
de previsível basta a morte
ente com quem terás o fatídico encontro...
Um telefonema,
uma conversa na calçada,
um esboço de sorriso.

Hoje saí e voltei convicto
de que aprendi algo do mistério de viver.




Niilista

Abro os olhos nesta nova manhã
mas, como levantar-me agora?
Primeiramente, confia-se no cosmos
na ordem natural do dia a dia
na ciência, na lei da atração
reação, combustão, exaustão...?
E, como andar novamente
com esses pés cansados
despidos, desprezados...
As luzes se apagam.
Abraçado e sem braços
abençoado por ninguém
ouço canções da infância
desenho elefantes no ar
carrego comigo esse peso do nada
esperando alguma solução para agir
Agir? Com - quem - por quê?



O Aprendiz

A verdade é que
o aprendiz sempre
morre um aprendiz.

Postado em 10/05/2014. Nicolas Peixoto.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Versos diversos

Quando meu tempo chegar

Chegará o tempo
em que meu tempo passará.

Ele virá de súbito

varrendo a minha sala
rasgando meus papeis
destruindo o que criei.

Encontrar-me-á sobre a cama,
aguardando por seu beijo.

Assim chegado o tempo,
não terei tempo de acenar


adeus.




Amor crucificado

Disse que te amo e, ao dizê-lo
desapercebi da sombra que então espreitava
desejosa de encontrar mente fraca,
travestindo respeito em medo.

Teus olhos me contaram com palavras
motivos para tua decisão:
coisas belas, ingênuas e tolas
justificam tua decisão.

Num pulso de dor, dúvida e paixão
perdi toda cautela,
escrevi nota singela
esqueci-me da repressora religião.

Tu, sabedora do que se passava,
lançou-me o olhar de quem com ouro não se seduz:
"Acredito no teu amor, meu bem,
mas peço que o guarde, pois prefiro a cruz".




Oscuridad (primeira tentativa)

Sozinho parti andando
na estrada da amargura
separado de quem amo
joguei-me de vez na sepultura.

Lá a minha luz se apagou
meus olhos perderam seu brilho
minha mente às trevas se entregou
à dor, à desesperança, ao castigo.

Passei pela porta do temor
recebido por aqueles de tolos amores
cruzando a ponte da morte
devorei (uma a uma) minhas dores.

Fui abandonado na noite mais negra
mais fria, mais feia, mas bela;
duma lua vibrante e cheia
onde sonhos desmancham-se no ar.

Meus fatigados olhos nada enxergam
traves enormes os impedem
as lágrimas que correm pelos vales
não encontram o chão.

Eis que na sombras frias
tuas mãos me alcançaram
alisaram meu rosto de pedra
fazendo-me esquecer meu eu.

Teus olhos, rubis profanos
resplandecem no vácuo do meu rancor
tua escuridão acalma o meu espírito
faz-me descer até tua presença!

Oh, senhor da minha tristeza!
Mestre do sofrimento, rogo-te
em meio às sombras do meu coração
afasta de mim esta esperança!

Oh, Oscuridad, tremendo! Oscuridad!
Recebo a tua divina ira!
Amaldiçoe estas grotescas liras
escureça meu coração!

Em tuas garras ferozes
de derrotados algozes
entrego o que restou de minh'alma
doce ilusão de vida!

Que teus dentes perfurem meu rancor
destruam as entranhas de meu corpo
atire-me no poço da mais profunda depressão!
Não sou mais aquele que via!

Escureça o meu coração, oh, Oscuridad!
Rasgue as veias, as artérias, meus pulmões!
Que teu brilho fosco seja meu manto
que a felicidade torne-se pranto!

Acendi velas para a minha paixão
e teus frios ventos apagaram-nas
e, na loucura de minha mente,
construí o teu altar!

Não me abandones, oh treva suprema!
Afogado em mil lamentos
conheço apenas o que não tenho,
entrego-te o que não resta!

Oh, Oscuridad!
Treva suprema!
Oscuridad!


Postado em 26/03/2014. Nicolas Peixoto.